Sunday, November 8, 2026

 

Quando o mestre usa IA: Linus Torvalds e o coração do Linux.

· @Reisev

Um caso real que mostra o que a inteligência artificial pode fazer e por que ainda precisamos de gente capaz de conferir o resultado.

Quando um iniciante usa inteligência artificial para escrever um programa, é fácil entender a utilidade. Mas o que acontece quando quem recorre a ela é o próprio criador de um dos sistemas mais importantes do mundo?

Foi o que aconteceu com Linus Torvalds, criador do Linux. O Linux é um sistema operacional (o programa que faz o computador funcionar), presente em servidores, celulares Android e supercomputadores. Torvalds usou o Claude Code, uma ferramenta de IA da Anthropic para programar, para atacar um problema de desempenho que desafiava os desenvolvedores havia mais de dois anos. Ele próprio vinha testando, por cerca de 18 meses, uma solução sua que não funcionava direito.

Segundo os relatos, a IA escreveu o código, os testes e a primeira documentação, e também revisou o trabalho sob orientação dele. Torvalds rodou as medições por conta própria e deixou claro o que a ferramenta fez.

Uma biblioteca dentro do computador

Para entender o problema, precisamos conhecer uma pequena parte do Linux.

O kernel é o núcleo do sistema operacional, o "gerente" que distribui memória, processadores e dispositivos entre os programas.

Quando um programa pede dados de um arquivo, o kernel pode já tê-los guardados na memória RAM (a memória rápida e temporária do computador). Essa cópia de acesso rápido se chama cache. Ela evita voltar ao SSD ou ao disco, que são mais lentos.

Imagine uma biblioteca em que um livro muito procurado fica sobre uma mesa. Pegá-lo é rápido, mas cada leitor precisa anotar numa folha única quando começa e quando termina a leitura, para ninguém tirar o livro enquanto ele estiver em uso. Com poucos leitores, tudo bem. Com uma multidão, a folha vira um gargalo: todos têm o livro à vista, mas fazem fila para anotar.

Nos computadores modernos, o equivalente dessa multidão são os núcleos do processador, as "unidades de trabalho" que executam tarefas ao mesmo tempo. Quanto mais núcleos, mais disputa pela anotação, e a velocidade cai mesmo com os dados já disponíveis.

Uma ressalva: a analogia simplifica. Na prática, o que atrasa é um contador compartilhado que precisa ser atualizado de forma segura por todos os núcleos. A proposta de Torvalds cria um "caminho rápido" que, em certas condições, dispensa esse registro e reduz a fila.

De onde vêm as "23 vezes"?

No teste divulgado, o kernel passou de cerca de 13,3 milhões para 304 milhões de pequenas leituras por segundo, aproximadamente 23 vezes mais.

Mas o próprio Torvalds avisou: o teste era artificial. Era um microbenchmark, ou seja, uma medição que isola uma única operação e a repete ao extremo. Nele, todos os núcleos liam repetidamente o mesmo pedacinho do mesmo arquivo. Isso serve para revelar um gargalo, mas quase nenhum programa real se comporta assim.

Pense numa fábrica que acelera muito uma etapa da produção. O ganho total depende de quanto aquela etapa atrapalhava o resto.

Para dar uma ideia mais realista, um desenvolvedor da Meta (empresa dona do Facebook) adaptou o trabalho e mediu ganhos de cerca de 4,5 vezes na leitura de arquivos em um formato muito comum de armazenamento, o ext4. Já em um teste com apenas uma tarefa lendo, praticamente nada mudou, porque ali não havia fila para melhorar. O ganho aparece onde há muita disputa, não em todo lugar.

A revisão faz parte da descoberta

Logo depois da publicação, outros desenvolvedores encontraram um defeito chamado condição de corrida: um erro que só aparece quando dois eventos acontecem ao mesmo tempo, numa ordem rara. É como dois motoristas que chegam ao mesmo cruzamento no mesmo instante: quase sempre dá certo, mas, quando falha, o estrago é grande.

Outro exemplo: numa conta conjunta com R$ 100, duas pessoas tentam sacar R$ 100 no mesmo instante. Cada aplicativo vê o saldo cheio e libera o saque, e saem R$ 200 de uma conta que só tinha R$ 100. Ninguém errou sozinho; o problema foi a coincidência no tempo. No Linux, o "caminho rápido" dispensa parte da coordenação entre os núcleos do processador, e isso abre espaço para que, num momento raro, um núcleo libere uma informação enquanto outro ainda a está usando.

Esse tipo de erro é difícil de enxergar. Um código pode funcionar milhões de vezes e falhar na vez em que o azar coincide. Por isso, a proposta continua em discussão e ainda não foi incorporada ao Linux.

O episódio pode ser lido de duas formas, e as duas são verdadeiras:

  • Lado positivo: o processo de revisão do kernel funcionou. Especialistas examinaram o código e acharam o problema antes que ele chegasse aos usuários.
  • Lado de atenção: a IA entregou um código com uma falha sutil, e foi preciso gente experiente para percebê-la. Além disso, revisar contribuições feitas com IA dá trabalho aos mantenedores do Linux, e a comunidade ainda debate como lidar com isso.

O que esse caso ensina (e o que não ensina)

Torvalds é, provavelmente, a pessoa mais qualificada do mundo para avaliar esse tipo de código, e o kernel conta com um dos processos de revisão mais rigorosos que existem. Então não dá para concluir que qualquer pessoa terá o mesmo resultado com IA.

O que o caso mostra é uma combinação:

  1. Experiência para formular bem o problema e reconhecer uma boa sugestão.
  2. Uma ferramenta que acelera partes do trabalho.
  3. Transparência sobre o que a IA fez e sobre os limites do resultado.
  4. Revisão de outras pessoas, que procuram o que escapou ao autor.

Talvez a lição seja esta: a IA pode ampliar o que sabemos fazer, mas o discernimento para conferir o que ela entrega continua sendo nosso. E esse discernimento só cresce com estudo e experiência.

Compartilhando o que aprendo, enquanto aprendo.

Escrito por Claude , edição de PoutPourri.

Fontes

Monday, October 26, 2026

 Os Três Pilares do Novo Contrato Social de Kruckel.


Os três pilares do novo contrato social propostos pelo autor Jeremy Kruckel em sua obra de 2025 ("Recalibrating the Social Contract: A Blueprint for AI-Resilient Societies") são projetados para estruturar uma sociedade resiliente diante dos impactos e transformações causados pela inteligência artificial. [1]

À medida que a IA remodelou as instituições tradicionais, o modelo econômico e o mercado de trabalho, Kruckel argumenta que os antigos acordos sociais tornam-se inadequados. Para mitigar esses impactos, o novo contrato social baseia-se em: 

Renda Básica Universal (RBU): Instituída como uma resposta direta às disrupções econômicas e à automação do trabalho provocada pela IA. Ela serve como uma rede de segurança financeira global para garantir a subsistência básica dos cidadãos em um cenário em que os empregos tradicionais são profundamente transformados ou extintos. 
Saúde Universal: Focada em garantir o acesso abrangente e igualitário aos serviços de saúde pública e bem-estar, fortalecendo a estabilidade da sociedade diante de novos desafios sistêmicos. 

Educação Gratuita ao Longo da Vida: O pilar focado no aprendizado ao longo de toda a existência. A premissa é fornecer acesso contínuo e universal à qualificação e requalificação educacional, permitindo que os indivíduos se adaptem continuamente às mutações tecnológicas aceleradas da era da IA. 

Como Financiar Esta Transição?

Uma das principais discussões do modelo é a viabilidade econômica. Kruckel propõe que o financiamento deste novo contrato social não deve recair sobre os trabalhadores individuais, mas sim sobre os imensos ganhos de produtividade gerados pela própria IA. 

As principais fontes sugeridas incluem:

Tributação sobre Dividendos de Automação: Modelos de impostos direcionados a empresas que substituem uma força de trabalho massiva por sistemas automatizados.

Retorno sobre Dados Públicos: Como grandes modelos de IA são treinados em infraestrutura e dados gerados publicamente, parte do valor e dos lucros multibilionários gerados por essas tecnologias deve retornar diretamente para o financiamento da rede de apoio social. 

Em suma, o modelo sugere que a sobrevivência econômica, a saúde e o aprendizado constante não devem ser privilégios, mas sim as fundações de uma sociedade preparada para o futuro tecnológico. 

O Caso Global para a Renda Básica Universal na Era da IA.

Resumo: À medida que a inteligência artificial remodela as principais instituições da sociedade, os modelos tradicionais de renda, saúde e educação estão se provando cada vez mais inadequados. Em resposta, este artigo propõe um projeto holístico para um contrato social resiliente à IA, fundamentado em três pilares mutuamente reforçados: Renda Básica Universal (RBU), saúde universal gratuita e educação gratuita ao longo da vida. Cada elemento aborda um aspecto distinto da segurança humana: a RBU garante a estabilidade econômica em um mundo onde o trabalho não é mais o único determinante do sustento; a saúde universal assegura que os cidadãos permaneçam física e mentalmente capazes de interagir com a sociedade; e a educação gratuita ao longo da vida capacita os indivíduos a se adaptarem continuamente, inovarem e participarem da vida democrática. Desenhando a partir de estudos de caso globais e experimentos de políticas públicas — desde nações pioneiras na Felicidade Interna Bruta até reformas inovadoras digitais de saúde e educação —, este artigo demonstra que, ao realinhar a governança com o objetivo do florescimento humano em vez de mera produção econômica, podemos construir sociedades resilientes que aproveitam a promessa da IA enquanto salvaguardam a equidade e a dignidade.

 

The Three Pillars of the Kruckel New Social Contract.

The three pillars of the new social contract proposed by author Jeremy Kruckel in his 2025 work ("Recalibrating the Social Contract: A Blueprint for AI-Resilient Societies") are designed to structure a resilient society in the face of the impacts and transformations caused by artificial intelligence. [1]

As AI reshapes traditional institutions, the economic model, and the labor market, Kruckel argues that old social agreements become inadequate. To mitigate these impacts, the new social contract rests upon: [1]

  1. Universal Basic Income (UBI): Instituted as a direct response to the economic disruptions and labor automation provoked by AI. It serves as a global financial safety net to guarantee citizens' basic subsistence in a scenario where traditional jobs are profoundly transformed or extinguished. [1, 2]

  2. Universal Healthcare: Focused on guaranteeing comprehensive and equal access to public health and welfare services, strengthening society's stability in the face of new systemic challenges. [1, 2]

  3. Lifelong Free Education: The pillar focused on learning throughout life. The premise is to provide continuous and universal access to educational qualification and requalification, allowing individuals to continually adapt to the accelerated technological mutations of the AI era. [1]

How to Finance This Transition?

One of the model's main discussions is economic viability. Kruckel proposes that the funding of this new social contract should not fall upon individual workers, but rather upon the immense productivity gains generated by AI itself. [1]

The main suggested sources include:

  • Taxation on Automation Dividends: Tax models directed at companies that replace a massive workforce with automated systems.

  • Return on Public Data: Since large AI models are trained on infrastructure and publicly generated data, part of the value and multi-billion-dollar profits generated by these technologies must return directly to funding the social support network. [1, 2]

In short, the model suggests that economic survival, health, and constant learning should not be privileges, but rather the foundations of a society prepared for the technological future. [1, 2]
The Global Case for Universal Basic Income in the Age of AI . 
Abstract As artificial intelligence reshapes the core institutions of society, traditional models for income, health, and education are proving increasingly inadequate. In response, this paper proposes a holistic blueprint for an AI-resilient social contract founded on three mutually reinforcing pillars: Universal Basic Income (UBI), free universal healthcare, and lifelong free education. Each element addresses a distinct aspect of human security: UBI secures economic stability in a world where work is no longer the sole determinant of livelihood; universal healthcare ensures that citizens remain physically and mentally capable of engaging with society; and lifelong free education empowers individuals to continually adapt, innovate, and participate in democratic life. Drawing on global case studies and policy experiments, from nations pioneering Gross National Happiness to innovative digital health and education reforms, this paper demonstrates that by realigning governance with the goal of human flourishing rather than mere economic output, we can build resilient societies that harness AI’s promise while safeguarding equity and dignity.

https://philarchive.org/rec/KRURTS-2