Monday, December 8, 2025

**2025: O Ano em Que a IA Saiu da Tela e Começou a Pegar no Pesado (E Por Que Mudei de Ideia)** Há um ano, eu era o rei da certeza.   “Os Ofícios Manuais Estão Seguros” . Argumentava que a IA jamais substituiria quem mexe com átomos, só com bits. Que encanadores e soldadores dormiriam tranquilos enquanto programadores dirigiriam retroescavadeiras. Achava que desemprego tecnológico em massa era fantasia de quem nunca sujou as mãos de graxa. Pois 2025 chegou e quebrou minha narrativa no meio. E não foi com um paper acadêmico ou previsão de guru. Foi vendo, mês após mês, robôs humanoides saindo dos laboratórios e entrando em armazéns, linhas de montagem, cozinhas industriais — pilotos reais, em empresas reais, fazendo trabalho real. Percebi: eu estava errado. E o erro não estava no *se*, mas no *quando*. Aqui está o mapa que desenhei depois de tirar a venda dos olhos. ### **As Três Ondas da Automação Física (e Por Que a Segunda Já Bateu à Porta)** Sempre imaginamos que a automação seguiria uma linha reta: primeiro o trabalho mental, depois — talvez décadas depois — o trabalho físico. A realidade é mais complexa e muito mais rápida. #### **Onda 1: A Revolução Cognitiva (2018–2028)** Já estamos nela. Tarefas baseadas em informação, padrões e linguagem estão sendo absorvidas ou radicalmente transformadas por LLMs e AIs especializadas. Design básico, código padronizado, tradução, suporte padrão, análise de dados simples — tudo isso já tem o rótulo “feito por IA” no orçamento. Quem sobreviveu aqui ou é **estrategista** (pilotando as ferramentas), ou é **verdadeiramente criativo** (onde a IA ainda patina), ou está em apuros. #### **Onda 2: O Corpo Digital (2026–2034) – A Que Ninguém Esperava Tão Cedo** Essa é a grande virada. Não são robôs de sci-fi perfeitos. São máquinas como a **Figure 02, Atlas Elétrico, Optimus Gen 2** — com destreza suficiente, preço despencando (rumo a US$ 20-30 mil) e treinadas em simulações massivas. Elas não vão consertar esgotos na chuva ainda. Mas vão: - Paletizar, carregar, organizar estoques - Fazer limpezas padronizadas em escritórios e hotéis - Montar componentes eletrônicos - Repor produtos em gôndolas - Auxiliar em tarefas repetitivas de enfermagem e logística Por quê? Porque o custo total (máquina 24/7, sem férias, sem turnover) já compete com o salário mínimo em muitos países industrializados. Empresas como Amazon, Mercedes e GXO já estão testando em escala. **Até 2030–33, trabalhos físicos em ambientes controlados serão raros.** #### **Onda 3: O Território Humano (2035–?)** Aqui está o refúgio — por enquanto. São situações de **alta variabilidade, contexto imprevisível e responsabilidade extrema**: - Reformas em casas antigas sem planta - Consertos de emergência em infraestrutura crítica, à noite, no meio do temporal - Cirurgias de campo em condições precárias - Artesanato de luxo e alta complexidade - Operações em ambientes perigosos e não mapeados (offshore, nuclear) Aqui, robôs serão **assistentes**, não substitutos. A combinação de imprevisibilidade, risco legal e baixo volume econômico mantém o humano no centro — pelo menos nas próximas décadas. ### **A Nova Geografia do Trabalho (Circa 2035)** A hierarquia clássica (colarinho branco > colarinho azul) desmorona. Surge algo novo: 1. **Gestores de frota robótica** – a nova classe capitalista, que detém e escala a automação. 2. **Solucionadores de caos** – humanos especializados em intervir nos 5–10% de casos onde os robôs falham. Serão raros, caros e valiosos. 3. **Criadores de sentido e experiência** – artistas, mentores, estrategistas, curadores. 4. **O resto de nós** – numa luta entre Renda Básica Universal, subempregos de “suporte humano” e a reciclagem profissional contínua. Obs.: Para "o resto de nós" poderão haver rotas maravilhosas a trilhar. https://poutpoury.blogspot.com/2025/12/from-ubi-to-eubi-building-civilization.html
O encanador do futuro não será aquele que vira a porca, mas aquele que comanda um esquadrão de robôs-especialistas e resolve o problema quando o algoritmo não entende o cano de 1890. A grande lição deste ano foi entender: **trabalho físico não é mais difícil de automatizar que trabalho cognitivo — só estava mais atrás na fila.** Quando você pode treinar um robô milhões de vezes em simulações hiper-realistas, a curva de aprendizado vira um precipício. Não teremos um apocalipse robótico. Teremos uma sociedade estranha, desigual e reinventada, onde o “trabalho” como conhecemos vai se esfacelar — para alguns rápido, para outros devagar, mas para todos de forma irreversível. Estamos preparados? Não. Mas as máquinas, cada vez mais, estão. **Nota do Blog:** Este texto é um cenário provável, não uma profecia. A velocidade dessa transformação dependerá de regulação, economia, escolhas políticas e da nossa capacidade de adaptação — individual e coletiva. A questão não é “se”, mas “como” e “para quem”. E essa conversa é urgentíssima.




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